domingo, 20 de abril de 2014

Parques Naturais da Rocha Moutonnée em Salto e do Varvito em Itu, São Paulo.



Paisagens comuns da Groenlândia no interior de São Paulo? Geleiras no Brasil? as rochas estão loucas...


Ficou um pouco difícil ir até a Groenlândia ou a Antártida para fotografar imagens lindíssimas de ambientes glaciais atuais para que pudesse compartilhar com vocês. Uma vez que moro entre os trópicos no hemisfério Sul da Terra - e essa não é definitivamente uma viajem trivial e corriqueira para a maioria das pessoas. Para aqueles que como eu ainda não tiveram a oportunidade de viajar para um lugar assim, no google earth (programa para computadores gratuito desenvolvido pela estadounidense Google Inc. que permite conhecermos lugares incríveis sem sair de casa) podemos ter uma ideia das condições existentes por "aqui" quando da formação das rochas do varvito de Itu e da moutonné de Salto, se acessarmos a costa oeste da Groenlândia - e visualizar as imagens por toda a Baía de Baffin. A vontade que dá é de conhecer Melville Bugt, apesar de ser bem friozinho por lá.  

Os Parques Naturais da Rocha Moutonnée em Salto e o parque do Varvito em Itu foram reconhecidos pelo CONDEPHAAT (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico e Artístico do Estado de São Paulo) como monumento geológico na década de 90, e hoje são mantidos abertos à visitação pública. Ambos os parques estão localizados nos centros históricos dos municípios de Salto (Parque da Rocha Moutonnée) e no de Itu (Parque do Varvito)  e contam com infraestrutura adequada que possibilita o acesso não apenas de grupos de estudantes e pesquisadores brasileiros e do exterior em excursões geológicas, como da população local e visitantes de outras partes do país e estes se firmam como importantes locais no cenário turístico ecológico do Estado de São Paulo.

As rochas encontradas nestes parques são especiais por apresentarem evidência da presença de Geleiras em locais que hoje encontram-se em regiões de clima quente, como por exemplo a porção sudeste da então America do Sul, mais especificamente - os pacatos municípios de Salto e Itu no interior do Estado de São Paulo, Brasil. As geleiras estiveram por "aqui" quando essas terras faziam parte do um supercontinente chamado de Gondwana. Neste supercontinente há 290 milhões de anos (Ma) as placas da America do Sul, África, Austrália, Índia e Antártida estavam unidas e compunham um mega continente localizado próximo ao Pólo Sul da Terra, em zonas de altas latitudes, muito-mais há muitooo... tempo antes do surgimento dos primeiros hominídeos (falaremos de tempo em uma próxima oportunidade). E desse modo são as rochas as principais responsáveis por nos contar o que aconteceu nestes locais a muito tempo antes de nós, nos dando pistas dos seus antigos moradores e de como eles viviam e, de como seria um mundo que mesmo apresentando semelhanças com o atual pode ser muito diferente e totalmente surpreendente.  

Parque Natural da Rocha Moutonnée em Salto


A rocha Moutonnée é um granito róseo com marcas deixadas pela abrasão quando da passagem de geleiras sobre a rocha, cuja abrasão típica remete ao formato arrendondado e assimétrico semelhante ao formato de um carneiro deitado (moutonnée - derivada de "mouton", palavra francesa que significa carneiro). No parque hoje apenas uma parte dessa rocha está preservada, uma grande parte dela foi retirada nos anos de lavra. Além do granito róseo (corpo maior), ocorrem pequenas exposições de tilitos sobrepondo o granito, de coloração cinza-esbranquiçada com aspecto heterogêneo dado os diferentes materiais que compõem essas rochas deixadas quando do avanço e recuo da geleira em depressões existentes no granito estriado. 


A rocha moutonnée de Salto é um ótimo exemplar do poderio de abrasão das geleiras associada a glaciação neopaleozóica na bacia do Paraná, cujo granito foi o pavimento em que deslisavam as geleiras e cujo degelo em Itu formou o Varvito. A partir das marcas de abrasão deixadas no granito é possível identificar a direção e o sentido da geleira e reconstuir as condições paleoambientais. 


Parque Natural do Varvito em Itu


Clássica exposição do Varvito de Itu. Varvito é o nome dado a essa rocha sedimentar formada pela sucessão de camadas de sedimento claros e escuros que se sobrepõem formando um ritmito glacial. Esta exposição formou-se na Bacia Sedimentar do Paraná, Subgrupo Itararé (Permo-Carbonífero) quando esta pertencia ao supercontinente Gondwana há cerca de 300 Milhões de anos quando da ocorrência da glaciação neopaleozóica no Brasil.


Os camadas claras-escuras de sedimentos finos se alternam regularmente e formam um paredão rochoso que registra as condições paleoambientais da época. Além da alternância de cor entre os estratos, ocorrem variações litológicas que nos remente a ambiente sedimentar de lago (proglacial - lagos formados de degelo de geleiras proximais) cujas condições sazonais (inverno-verão) seriam os principais responsáveis pela alernância entre as camadas.


Entre os estratos regularmente depositados, podemos verificar a ocorrência de notáveis porém raros clastos (pedregulhos) de diferentes formatos e tamanhos ocorrendo de modo dispersos entre as camadas. Estes clastos, também conhecidos popularmente como seixo pingado, teriam ido parar entre esses estratos pelo derretimento de icebergs que flutuavam nas águas do lago e carregavam consigo estes seixos.   


Outras estruturas interessantes são as marcas deixadas pelos organismos que viviam no fundo desse lago glacial, conhecidos como icnofósseis. Estas marcas foram deixadas na superfície e se preservaram dentro do registro geológico como o registro de organismos invertebrados aquáticos bentônicos.   


Por fim, a visita desses dois sítios geológicos são complementares e nos ajudam a entender o avanço das geleiras na região, e de quão diferentes podem ser as condições paleoambientais de um mesmo local dentro da grande história geológica da Terra.    


Dicas de Leituras

ALMEIDA, F.F.M. de; CARNEIRO, C.D.R. 1995. Geleiras no Brasil e os parques naturais de Salto e Itu. Ciência Hoje, v. 19, n. 112, p. 24-31.

CARNEIRO, C.D.R.; ALMEIDA, F.F.M. de. 1997. Um passado bem geladinho. Ciência Hoje das Crianças, n. 78, p. 4-8.


Leituras na web


http://sigep.cprm.gov.br/sitio021/sitio021.pdf

http://sigep.cprm.gov.br/sitio062/sitio062.pdf


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